Diligência dos Mortos

"Ai da cidade ensangüentada! Ela está toda cheia de mentiras e de rapina; não se aparta dela o roubo. Estrépito de açoite há, e o barulho do ruído das rodas; e os cavalos atropelam, e carros vão saltando. O cavaleiro levanta a espada flamejante, como a lança relampejante, e ali haverá uma multidão de mortos, e abundância de cadáveres, e não terão fim os defuntos; tropeçarão nos seus corpos (Naum 3:1-3)"

Num procedimento fracassado e três corpos agora estavam na frente do velho supermercado que oferecia no catálogo de ofertas, distribuídos pelas casas do bairro, contra filé por nove e noventa e nove. A ação frustrada de um policial que estava ali para comprar cerveja, carvão e carne na sua folga acabou transformando seus doze anos de serviços prestados ao Estado em mais uma tragédia. Agora o que restava ao reforço das viaturas – que chegaram minutos após os tiros – era cobrir os corpos, preservar as evidencias, dar uma sensação de segurança para os demais clientes além aguardar o caminhão do Instituto Médico Legal. Parentes das vitimas foram mais eficientes na informação, pois chegaram antes dos repórteres dos telejornais da noite.

A atendente de caixa estava em estado de choque, com a blusa da firma lavada em sangue e um buraco no ombro aguardando o resgate. Era a mãe da atendente a mais desesperada de todos, apesar da hemorragia já ter parado de sair da ferida aberta e ver que sua caçula ainda estava consciente, clamava a Nossa Senhora que não deixasse mais uma trabalhadora morrer, como uma cena teatral. Um presépio de horrores estava formado em frente ao supermercado da economia, porém aquele era outro acontecimento que tornava-se corriqueiro nas vidas pacatas daquelas pessoas.

Se o policial Selmo não colocasse na cabeça que deveria sair naquela sexta-feira para comprar com antecedência os ingredientes do churrasco de domingo, talvez perderia a promoção de carnes, mas não teria flagrado dentro do comércio, o cano tremulo do revolver apontado na cara da atendente de caixa. Certamente ele também não iria aproveitar a distração e o nervosismo do ladrão para sacar sua pistola de dar voz de prisão. Se Selmo não saísse de casa para ir ao mercado, não seria alvejado com quatro tiros – dois pegaram no reboco da parede, outro furou uma lata de milho e o quarto perfurou seu pescoço. Ele não teria revidado já ao ouvir o primeiro disparo, fazendo pontaria certeira bem no peito do bandido que recuava para rua, disparando mais duas vezes atingindo fatalmente a cabeça do cretino que caiu desfalecido na calçada. Tomado pela adrenalina e com falta de ar, pois o sangue da ferida na sua garganta dificultava sua respiração. Selmo foi ao encontro do ladrão, quando avistou um senhor fugindo, pensou que fosse um comparsa e também queimou o transeunte de tiros. Só depois Selmo sucumbiu no meio-fio, afogado com seu próprio sangue. Três corpos agora estavam caídos na frente do velho supermercado. Já a ferida no ombro da atendente de caixa, é função da perícia investigar quais das armas fez aquele estrago. Maldita oferta de carne...

Maldita oferta de carnes humanas, que nos trás indiferença pela vida do semelhante. Nos tornamos invulneráveis ao medo ou a compaixão, deixando-nos cada vez mais individualistas e pouco cautelosos com a continuidade da sobrevivência de nosso ser. A continuidade da existência humana. Maldito excesso de seres humanos na Terra que contamina toda sua superfície com seu excremento destruidor. A Terra está saturada em devorar e decompor carne humana ao ponto de não suportar mais. A própria mãe terra está nos negando além de água, conforto ou espaço para reproduzirmos.

Maldita ganância humana! Será que existe um Reino dos Céus para nós, Destruidores Terrestre? Seremos julgados apenas por nossas ações individuais ou sofreremos também pelo coletivo inconsciente? A Bíblia nos diz que a salvação é individual para cada ser, mas também não está escrito que “as más conversações corrompem os bons costumes”? Então estaremos todos desgraçados!

Ali, em frente ao supermercado, estavam três corpos iluminados pelos últimos raios de luz natural do dia, esperando o IML. O Sol tocava o horizonte deixando a atmosfera encarnada. Pássaros fugiam em revoadas a procura de esconderijos contra a noite que se aproximava. As cores que se formavam no céu eram uma mistura de tonalidades avermelhadas. Foi quando o último animal alado conseguiu encontrar refúgio, que a alma daqueles três corpos desprenderam-se. Agora os espíritos do policial, ladrão e do transeunte erguiam para firmar-se em pé. Apenas aquelas as pessoas se que podiam avistar dali por diante, com se ambos transcendessem a uma outra dimensão, um lugar intermediário entre dia e noite. Um crepúsculo eternizado.

Os três espíritos desencarnados tinham ciência do que estava acontecendo; então passaram a discutir entre eles nervosamente, buscando quem era o responsável por suas estadas naquela situação. O policial Selmo insultava o assaltante, enquanto era afrontado pelo outro individuo por tê-lo matado.

Fora neste discurso aflorado que ambos ouviram um som que os oprimiu no mais intimo de suas consciências. Vinha do final da rua deserta, em suas direções, uma enorme nuvem negra que deixava turvo a pouca luz sendo ecoada pelo som semelhante ao de mil soldados marchando ao encontro deles. Ambos atentaram ao grande monstro que se aproximava para buscar suas almas e eles agora observavam em silêncio. A imagem que viam era realmente impactante:

Viram uma enorme carruagem escura. Como uma diligência, semelhantes as do século XIX, da cor de mogno antigo, cheia de detalhes esculpidos na madeira. A condução era puxada por pessoas – mulheres, crianças, homens jovens, idosos, todo tipo de gente estava lá – presas por correntes que fincavam com ganchos suas peles. Essas pessoas que arrastavam a grande carruagem apresentavam a aparência de flagelados com os pés descalços, usando trapos ou até seminus, corpos encardidos pela poeira que levantavam, cabelos desgrenhados por lama e suor, com semblantes de muitíssima agonia. Suas pisadas cadenciadas produziam aquele som marcial ao arrastarem a enorme diligência. Inúmeros morcegos e corvos sobrevoavam os sofridos condutores arrancando com mordidas parte de seus porcos para forçá-los a correr cada vez mais rápido. Grandes vozes misturavam-se naquela gente, algumas eram de choro, outras de murmúrio ou lamentação, porém nenhuma era de escárnio por tamanho sofrimento. A carruagem parou bem próximo dos três espíritos na frente do supermercado e eles viram a nuvem de poeira, morcegos, insetos e corvos ser sugados para baixo da grande condução. Na parte de trás agora se podia observar corpos humanos presos por grilhões, estavam todos mutilados e eram arrastados pelo asfalto quando a condução se movimentava. Eles viram que, apesar de mutilados, os corpos arrastados ainda estavam mexendo em carne viva, pois a pele deles ficava pelo caminho. O cheiro que sangue coagulado, aglutinado às fezes mais suor dava uma apavorante sensação de pânico aos três novos mortos que congelaram de medo.

Medonho mesmo era o cocheiro, um ser muito alto que segurava todas as correntes como se fossem rédeas. Ele permanecia em pé sobre o teto da carruagem, coberto até a cabeça por um manto de tonalidade escura. Ao posicionar o veículo na frente daquelas três pessoas, o ser de vestimenta preta deu um salto, parando na direção aqueles recém mortos – parecia mais uma levitação ou um vôo do que um pulo. O condutor da diligência elevou suas mãos para retirar o capuz que encobria seu rosto. O eles viram uma cara sem nenhuma cor – como uma pessoa albina – de traços finos no nariz, boca e queixo – não dando para distinguir se era homem ou mulher. Aquela cabeça de cabelos brancos – que escondia as orelhas – bem aparados e escovados voltou-se para os três a sua frente, causando arrepios em todos os sensores nervosos daquelas almas. Quando o cocheiro então falou:

– Saudações, recém chegados! Eu sou “Malak al-Maut Azrael” o último anjo a ser criado. Graças à rebeldia humana, pois, se não fosse a degradação do homem a mim não haveria nenhuma serventia. Tenho a incumbência de recolher e conduzir vossas imortais almas, onde verdadeiramente estão presas ao espírito do altíssimo, até serem entregues no grande dia do juízo final. Adianto que até aquele derradeiro momento tenho o dever de acompanhá-los, pois estou outorgado pela santíssima trindade. Ou seja, sou a Morte! – e abrindo a portinhola da carruagem, saindo de lá grande quantidade de braços e corpos fantasmagóricos que tentavam fugir – Quem quer ser o primeiro a embarcar?

O policial Selmo, nem o ladrão, muito menos o transeunte se manifestara; então Azrael tomou a iniciativa de escolher. Ele olhou novamente para o ex-soldado do estado e falou:

– Márcio Selmo de Oliveira, saiu do ventre da professora Maria do Carmo que também gerou outros dois filhos. Você sempre fora uma criança forte, saudável e inteligente. Já aos catorze anos conheceu os prazeres carnais com uma das muitas mulheres que passaram por sua vida. Passou grande parte de seus dias regados a bebidas, cigarros e proferindo palavras abomináveis. Entrou para a força policial de seu estado, dando preferência a tropa de elite que matava por satisfação em exterminar marginais. Marginais iguais a você. Muitos das almas que estão aqui comigo foram trazidas por intermédio de tuas mãos. Casou-se e foi um bom marido, ótimo pai e um agradável vizinho. Entretanto, eu não estou incumbido de julgá-lo, apenas digo que você fora uma ferramenta para a sociedade e viveu muito bem. Aceita agora seu lugar nesta carruagem e passe pela portinhola aberta.

Selmo tremeu o corpo, como se tivesse ameaçando fugir. Porém o anjo continuou:

– Resistir só lhe trará mais dor, entre como um soldado obediente que sempre fora.

Ao encostar à entrada da carruagem, os braços que estavam para fora agarraram Selmo e – num grito de desespero – fora tragado para dentro da diligência. O anjo da morte então voltou-se para o transeunte prosseguindo:

– Bernardo Conceição da Costa, filho único da dona de casa Fátima Costa. Sempre esteve doente e com problemas respiratórios, sua mãe passou horas com você em hospitais e igrejas para alcançar a cura de seus males. Ela não resistiu a tamanho sofrimento e morreu de depressão, sendo seu espírito recolhido por mim quando você tinha doze anos. Daí em diante seu caráter passou a ser moldado de acordo com os preceitos bíblicos, fazendo de ti um homem de Deus. Conheceu uma única mulher com que casou e jamais envolveu-se com coisas impuras. Você acha que é melhor do que os demais aqui dentro? Porém não estou incumbido de julgá-lo; se pensas que é superior aos seus semelhantes então seu lugar será na dianteira desta carruagem.

Então quatro pesadas correntes de aço enferrujado saíram da frente do veículo e enrolaram-se pelo corpo do transeunte Bernardo. Agora ele somava ao seres fétidos que puxavam aquela pesada condução. A Morte olhou, por fim, para o ladrão e disse:

– Pedro José da Silva, saiu do ventre da voluptuosa e promíscua Natália da Silva que também gerou outra criança. Cresceu sendo torturado injustamente por sua mãe e pelos amantes dela. Conheceu o sexo aos oitos anos, ao ser estuprado por seu padrasto. Vingou-se dele aos quinze, com vinte facadas em seu peito. Neste dia em diante você se perdeu num mundo de podridão e violência, roubando para manter-se. Além do policial Selmo e do teu padrasto, outra alma esta aqui por intermédio de tuas mãos. Você foi um ser contaminante para a sociedade que viciou uma de suas namoradas, acabando ela a morrer de overdose. Lembra-se? Porém no teu último momento de vida clamou pela rendição de Jesus na Cruz e, como os assassinos Caim e Moises, ou como o ladrão crucificado junto à Cristo tu serás absolvido. Porém, eu não estou incumbido de julgá-lo, muito menos tenho misericórdia. Logo seu lugar nesta carruagem é sendo arrastado como um lixo humano.

Ao ouvir isto, o assaltante Pedro correu para esquivar-se de sua posição na diligência. Azrael esticou seu braço e, como uma enorme foice, fincou suas garras nas vértebras do ladrão, sendo puxado para junto do veículo. Grilhões e algemas saíram para prendê-lo, fazendo com que seu corpo duro e imóvel caísse ao chão.

Por fim a morte retornou a sua posição de condutor, segurando as rédeas onde agora também estava Bernardo a puxá-la. Saíram de baixo da carruagem uma nuvem de morcegos, corvos e insetos que passaram a arrancar pedaços das pessoas posicionadas na parte da frente – forçando-as a movimentar o veículo. Marcharam então todos, com um forte som das rodas misturada a agonia daqueles que aguardavam o julgamento do Criador. O policial Selmo estava agora nos braços da mulher que morrera de overdose causada pelo assaltante Pedro, ela o acariciava em gratidão pois a jovem tinha sido viciada ainda nova; era Selmo seu vingador. Já o ladrão Pedro sofria com o atrito do asfalto em sua pele, além de outros corpos mutilados ali arrastados tentar subir nele para usá-lo de tapete.

O tempo terrestre voltou a correr, onde anoitecia quando o caminhão do IML seguiu – com os corpos que estavam na frente do supermercado – pelo mesmo caminho onde desapareceu a grande Diligência dos Mortos.

(Dedicado a todos os policiais mortos durante sua missão de nos proteger.)




Autor: FRANCISCO C. O. FARIAS JÚNIOR