O MESMO JOGO

Paulo Valença

1

José, sorrindo, para o amigo à sua frente:

- Carlinhos já notou?

Este, surpreso:

- O quê?

Mantendo o sorriso, José diz malicioso:

- Aquela “gata” na mesa perto do balcão... não desgruda os olhos de você.

Com interesse então Carlinhos devagar, disfarçando, se volta, fitando a adolescente.

Esguia. Morena. Bonita. Sorri e ela lhe retribui com o sorriso de covinhas, que exibem os dentes alvos, certinhos, brilhantes.

- Pronto cara: “ganhou” a garota!

Conclui José, que segue a paquera do companheiro de mesa e, acena ao garçom, pedindo outra cerveja.

Fora, a madrugada envelhece com a redução de veículos na avenida e pedestres no calçadão à beira-mar, enquanto o vento frio circula, agasalhando tudo.

Logo, Carlinhos resoluto, se ergue:

- Vou falar com a menina.

- Vai lá, cara!

Sorriem coniventes, vividos, experientes em aventuras amorosas.

Carlinhos encaminha-se à mesa, onde a morena sorrindo, convida-o, numa promessa.

2

Agora, defronte ao espelho, barbeando-se, relembra a madrugada anterior. Os olhos. O convite. O motel. As loucuras cometidas. A mordida carinhosa, no pescoço, na sensualidade da fêmea ao se despedir...

Aí percebe os dois furinhos paralelos, arroxeados ao lado esquerdo do pescoço e, ao mesmo tempo do embalo da lembrança do que curtiu, ao sorrir, também nota que seus dentes caninos estão maiores, pontiagudos. Então, pensativo, tira conclusões, encarando a sua verdade.

3

À noite, sai no automóvel, buscando a primeira vítima, que lhe sacie o desejo... de sangue.

Os olhos analíticos buscam, buscam. Sim, a caçada inicia-se, sob a lua que alheia ao que presencia, caminha lentamente dentro de sua eterna indiferença.

O carro ganha a avenida à beira-mar.

Adiante a adolescente loura, com graciosidade caminha no calçadão.

Devagarzinho o veículo avizinha-se.

- Quer uma carona?

Voltando-se ela sorri e, à luz do poste vizinho, surgem os dentes perfeitos, brancos, de molares crescidos, pontiagudos?

- Aceito.

A porta então é aberta e o casal se afasta, irmanados na cumplicidade do mesmo jogo da busca. Da próxima vítima.