ORGIA GÓTICA

  Lá fora, a noite estava bastante sombria, a neblina e a garoa cobriam a gélida cidade de Birmingham, nada de anormal, já que são sempre assim todas as noites de inverno inglesas.

      Em nossa casa, a fogueira da lareira estava acesa, aquecendo a sala. Tia Morgana cochilava na cadeira de balanço, ao lado da fogueira, e com o seu tricô sobre o colo.

      Era quase meia-noite e todos os empregados da casa haviam se recolhido. Eu estava sentado na poltrona da sala e, até o presente momento, eu parecia estar num estado de transe, ou talvez, num estado de torpor causado por alguma droga,  eu acho.

      Eu sentia como se toda a minha vida começasse a partir daquele momento, apesar de não ter até ali nenhuma lembrança passada. Lembrava da casa, da tia Morgana, dos empregados, e da Michele, a minha esposa, que havia saído e até o momento não voltara.  Mas era estranho, pois a minha lembrança limitara-se até ali  - eu não tinha nenhuma recordação passada.

      Apesar de muito preocupado como estava, não conseguia expressar tal sentimento, eu simplesmente estava em estado de plenitude.

      Tia Morgana despertou de seu cochilo, levantou-se e dirigiu-se até a mim. 

       – Já é tarde sobrinho, vamos dormir.

       - Sim,  tia,  eu já vou, mas acho que vou esperar um pouco mais pela Michele e,  a propósito, para onde ela foi, que até agora não chegou?

      - Não se preocupe,  querido sobrinho, ela está bem. Por que você não vai dormir um pouco para descansar? E ela já deve estar chegando. Vamos dormir e amanhã conversamos.

       Dito isso, tia Morgana recolheu-se em seus aposentos, mas eu percebi que no seu semblante tinha uma tristeza e uma preocupação.

      Achei o comportamento da minha tia muito suspeito, pois nós nos dávamos bem e não tínhamos segredos. Pensei em chamá-la e perguntar se estava acontecendo alguma coisa, -mas preferi ficar ali esperando pela Michele.

      Eu continuei sentado ali na poltrona da sala, tranqüilo e sereno, olhando a lenha queimar. Neste instante, fechei lentamente meus olhos e comecei a lembrar da época que Michele eu namorávamos.

      Nós éramos um típico casal gótico, adorávamos ir ao cemitério de Birmingham nas madrugadas ermas e mortas para namorar, ler as poesias de Lord Byron, tomar uísque e fazer amor em cima dos túmulos.

   Nossos pais não aprovavam nossa conduta, queriam o fim do nosso namoro.Por este motivo, nos cassamos escondidos e passamos a viver com minha tia Morgana, que era viúva, e vivia sozinha em sua mansão.

      Um dos momentos mais marcantes do nosso amor foi numa certa noite, no cemitério de Birmingham, onde nós fizemos um pacto de sangue. Tirei do bolso uma pequena navalha, cortei o meu pulso e o dela, misturamos nossos sangues e juramos que nem mesmo a morte nos separaria. Acho que esta era a lembrança mais recente que eu tinha dela até aquele momento em que me encontrava ali na sala.

       De repente, comecei a sentir muito frio e, ao abrir novamente os olhos, percebi que não estava mais em casa, e sim, no cemitério de Birmingham, precisamente sentado numa sepultura.

      A princípio, fiquei aterrorizado, “com mil demônios, como eu vim parar aqui?” – perguntei comigo mesmo, pois há poucos instantes eu estava na sala de casa!

      Quando me pus a voltar para casa, caminhando perdido no meio das sepulturas e sem enxergar nada devido ao denso nevoeiro, percebi que uma imagem tomava forma no meio da neblina, quando se aproximava de mim.

      Fiquei parado, esperando para ver quem era, e quando finalmente estava à minha frente, percebi que se tratava da amada Michele.

       Eu peguei suas mãos e beijei-as delicadamente, depois beijei sua boca. Disse que eu a amava, que estava preocupado, que sentia a sua falta e também quis saber o que ela fazia no cemitério aquela hora da madrugada?

-

       Então, ela disse que também me amava, que sentia muito a minha falta e que nunca me deixaria.

      Demo-nos as mãos, caminhamos lentamente pelo cemitério, depois nos sentamos numa sepultura e começamos a conversar. Eu falava que não entendia nada do que estava acontecendo comigo nos últimos momentos: o comportamento da tia Morgana,  as minhas atitudes,  meus esquecimentos,  de como cheguei ali... enfim, tudo.

      - Calma,  meu amor - ela dizia acariciando meu rosto com sua mão macia  -,  tudo ficará bem porque estamos juntos. – Você se lembra do nosso juramento?

' - Sim - eu respondi. -  “Nem mesmo a morte nos separará!”. Mas,  Michele, já é tarde e está muito frio,  meu amor. Você pode pegar uma gripe ou pneumonia, vamos para casa e amanhã você me conta direitinho o que estava fazendo aqui. É tudo muito estranho, pois eu nem sei como vim parar aqui. Eu estava em casa sentado ao lado da lareira, fechei os olhos por alguns minutos e, ao abri-los, acordei aqui. Se a tia Morgana acorda e descobre que nós não estamos em casa, ela pode ter um ataque. Venha, vamos voltar para casa.

      - Eu gostaria muito,  querido - ela respondeu.-  Mas antes, será que este lugar não te lembra algo?

      Eu entendi onde ela queria chegar,. Michele queria recordar os velhos tempos de namoro, talvez todo aquele suspense não passasse de uma surpresa do destino, ou até mesmo da própria Michele, pois desde que nos casamos, não mais namoramos no cemitério.

      Foi então que percebi um pequeno volume no bolso da calça. Tirei-o e era uma garrafinha com uísque. Deixamos de lado o imenso frio que fazia naquela noite, nos despimos e nos amamos ali mesmo.

      Na manhã do dia seguinte, ao acordar, nós estávamos no nosso quarto. Novamente não me lembrei de como chegamos ali:  simplesmente, estávamos lá.  Lembrei-me  da noite passada, da maravilhosa noite de amor com Michele, naquele cemitério,  e parecia ter acordado de um sonho lindo.

      Sentei na cama com cuidado para não acordar Michele, que dormia profundamente, pois a madrugada tinha sido exaustiva e eu queria que ela descansasse bem. Olhei para o relógio, eram dez horas, e provavelmente todos já estavam de pé.

      Vesti o roupão e dirigi-me ao banheiro. Pelo caminho do corredor,  ouvi vozes vindas lá debaixo;  na sala, parecia haver um pequeno tumulto.

      O problema parecia ser sério e despertou-me a curiosidade. Então desci até a sala de visitas.  vestido com o roupão mesmo para saber o que se passava.

      Ao chegar à sala, tia Morgana estava com um delegado, três policiais e o coveiro do cemitério. Todos estes emanavam de seus semblantes um assombro,  que também me contagiou.

      - O quê acontece senhores? – eu perguntei. Tia Morgana pediu que eu sentasse no sofá, que ficasse calmo e começou a falar: 

       - Calma,  querido sobrinho. Você acabou de receber alta da clínica, e o médico falou que você não pode ter emoções fortes!

      - Que clínica? Quê médico? Do quê a senhora está falando, tia Morgana?

      - Estou falando da Michele querido. Quando ela morreu, logo após o enterro, você sofreu uma crise nervosa e ficou internado numa clínica por três meses.

      - Calma tia, a senhora está muito nervosa  - eu falei.

      - Não. - Continuou ela. - A Michele morreu de leucemia e nesse período você ficou numa clínica,  sendo tratado a base de calmantes.

      -  Tia - eu continuei. -Está tudo bem. Olhe, a Michele está viva, eu a vi.

      - Não querido, a polícia e o coveiro estão aqui porque ontem à noite alguém entrou no cemitério, abriu a ataúde, violou o caixão e roubou o corpo. -É bizarro!

      - Não,  tia, deixe-me explicar: ontem à noite, àquela hora,  quando a senhora foi se deitar, eu estive com a Michele no cemitério. Nós nos encontramos lá, passeamos e conversamos um pouco, mas não violamos nenhuma sepultura. Deve ter havido algum engano. Mas eu prometo para a senhora e os senhores que ontem foi a última vez que nós namoramos no cemitério.

      Neste momento, todos eles ficaram assombrados com a minha declaração! 

      - Querido, a Michele está morta! - Insistiu a minha tia.  completamente aturdida.

      -  Bom, já chega!  - disse eu enfurecido -  Já que vocês não acreditam em mim, eu os convido a irem até o meu quarto para verem que a Michele está dormindo lá.

      Então, todos os ali presentes, sem excluir nenhum, acompanharam-me até o quarto. Eu segui à frente,  enquanto todos me seguiam,  incrédulos. Ao chegarmos, abri a porta, dirigi-me até o corpo coberto em cima da cama, puxei a coberta e a cena foi aberradora:

      Diante de todos nós presentes estava o cadáver podre de Michele, morto há três meses, completamente nu, e  molestado por mim. O odor era insuportável e os vermes comiam os restos da carne em decomposição. .

      No chão, estavam as minhas roupas e sapatos, sujos de lama, e,  ao lado da cabeceira da minha cama,  encontrava-se o pé-de-cabra que eu usara para romper as travas do caixão na noite anterior,  e trazer o corpo para meu quarto.

      E eu, tia Morgana, o coveiro, o grupo de policiais e os empregados, todos sem exceção, ficamos ali trêmulos e incrédulos, paralisados de espanto com aquela cena de terror e infâmia que eu causara.




Autor: RONYGLAY CARVALHO FONSECA