O LOBISOMEM DOS PAMPAS

Rosalvo Ruas, era um pequeno agricultor, morava com sua família do sul do Brasil, nos Pampas Gaúchos. O ano era de 1953; Brasília, a atual capital do Brasil, ainda não fora construída e ninguém ainda tinha ouvido em falar em Gilberto Gil e Caetano (bons tempos aqueles).
Era uma noite muito clara, pois a Lua cheia estava em seu auge. Durvalina, a fiel esposa de Rosalvo, estava fazendo um cozido, que pelo cheiro, parecia muito apetitoso. O casal tinha um belo filho, um varão de 13 anos que gozava de muita saúde, seu nome era Roneide. Durvalina se mostrava um pouco preocupada, pois já anoitecera e o rapaz ainda não tinha chegado para jantar.
Rosalvo, que além de faminto, estava também preocupado, resolveu sair à procura do guri que nunca se atrasara antes. Deixou o chimarrão no bule para não esfriar e foi procurar o moleque.
_ Bah Tchê! Vou procurar o guri. Disse o agricultor
_ Barbaridade! por onde anda esse guri? Pai, vai atrás do meu filho e trás ele de volta! Disse a dedicada esposa.

Assim que Rosalvo pôs os pés fora de casa, um uivo assustador fez com que sua espinha arrepiasse.
"OOOOOOUUUUUUUUUUUUOOOOOOOOOOUUUUUUUUUUU !!!!!!!!!!"
_ Que foi isso santo Deus do Céu? Gritou a mulher de dentro da casa enquanto fazia o "nome do pai".
_ Deve ser um lobo...mas aqui nos Pampas não tem lobo assim... Estranho, muito estranho. Rosalvo pensou em voz alta
Logo em seguida saiu de casa caminhando na direção do uivo. Ele trazia consigo uma foice. Cauteloso, o gaúcho foi procurando por algo estranho perto do galinheiro. As galinhas estavam fazendo muito barulho e pareciam assustadas; os animais do celeiro também estavam inquietos. Cheiroso, o bode, não parava de dar cabeçadas na porteira do curral.
Apesar da lua cheia, estava um pouco escuro, já que não tinha luz elétrica no Sítio. Rosalvo foi se aproximando do galinheiro, quando um vulto negro passa por trás dele. O gaúcho quase cospe o coração, tamanho foi a susto. Rosalvo se vira lentamente preparado para "sentar" a foice na tal figura quando percebe que o vulto não passa de uma criança.
_ Roneide!!! Seu guri filho de uma égua cega!!! Além de se atrasar, quase mata seu velho pai de susto!!! Gritou o pai bufando como um touro. Rosalvo leva o rapazinho pela orelha para casa e logo pôs-se a tomar seu chimarrão noite adentro.

Na manhã seguinte, o gaúcho vai até a Vila do Brejo Seco para conversar com os amigos e comprar alguns mantimentos.
_ Mas Bah Arlindo!!! Ouvi um uivo gelado como a chuva e o meu guri me deu um susto que quase botei os bofes pra fora! Contou Rosalvo ao dono do Empório Nossa Senhora de Fátima, um imigrante Paraguaio.
_ Mas como hombre de Deus? Tu tienes medo de un lobo? Deves ter borrado las bombachas!! Gargalhou o comerciante junto com os outros homens no Empório.
_Vocês podem rir a vontade, bando de Maricons! Só sei que se esse lobo voltar, vou enfiar um bala no meio dos olhos. Disse Rosalvo ao sair com as compras.
Rosalvo aproveitou para comprar cartuchos para sua 22 de 2 canos, que ele carinhosamente chamava de "Furiosa". Mais tarde, enquanto preparava a carroça para voltar ao seu sítio, um índio se aproximou de Rosalvo.
_Acho que isso não vai adiantar nada contra o dito cujo que tu vais encarar. Disse o índio com um Português melhor do que a média do lugar
_De que tu tá falando Índio Velho?
_Eu estou falando de Lobisomem!!! Disse o índio com um voz sombria
Mais uma vez o gaúcho sentiu um frio na espinha. Um pavor insólito tomou conta de sua mente ignorante.
_Cala tua boca velho imbecil! Eu não acredito nessas crendices de gente besta! Coyote velho! Ao dizer isso, subiu em sua carroça e voltou para casa.

Chegando em casa, Rosalvo não conseguia pensar em outra coisa. Ele se assustava com tudo, sombras, ruídos, luzes... até o sonoro peido do bode Cheiroso no curral, ao qual ele já havia acostumado, o assustava também.
_RRRaaça de bode duma figa!!! Eu ainda te castro com um facão!! Disse o irritado gaúcho.
Após o jantar, agoar mais calmo. Ele foi se deitar com a mulher; Roneide estava incumbido de trancar as porteiras e a casa. Rosalvo estava quase dormindo quando....
"OOOOOOUUUUUUUUUUUUOOOOOOOOOOUUUUUUUUUUU !!!!!!!!"
Rosaldo dá um pulo da cama já engatilhando a "Furiosa". Durvalina, completamente apavorada, se esconde debaixo da cama e começa a rezar um rosário. O gaúcho se dirigia em direção da porta dos fundos quando percebeu que o guri não estava em seu quarto.
_ Ai ai ai! Mulher!!!! O guri não esta em casa. Deve estar lá fora!! Gritou o fazendeiro enquanto saía com a "Furiosa" preparada. A mulher a essa altura já estava no terceira conta do rosário.
Ao chegar lá fora, havia um alvoroço sem precedentes no galinheiro, parecia que todas as galinhas cacarejavam ao mesmo tempo, uma balbúrdia! Rosalvo correu em direção do galinheiro atirando. Um vulto negro pula agilmente pela janela do galinheiro e corre em direção à plantação de mate e some na escuridão. Rosalvo chega ao galinherio e vê que quase todas as galinhas estavam mortas, degoladas. Agora Rosalvo procura desesperadamente por Roneide, correndo em volta da casa, quando de repente, dá de cara com uma figura baixa e escura. Rosalvo conseguiu se recuperar do susto e se preparava para atirar com sua espingarda quando ele reconhece o pequeno vulto. Era Roneide que estava completamente sujo de barro.
_ Roneide!!! Seu filho de uma porca duroq!!! Tu tas afim de matar seu velho pai de susto mesmo. Tu não ouvites o uivo do lobiso...ah...lobo e as galinhas gritando? Gritou o gaúcho gesticulando com a "Furiosa" na mão.
_ Não pai... eu não ouvi nada. eu caí no brejo quando fui fechar a porteira. Disse o rapaz, que agora estava assustado.
_Já pra dentro!!! Filho de uma cabra asmática! Gritou Rosalvo com o filho, muito mais com medo do que raiva.
O pobre gaúcho não conseguiu dormir a noite interia.

Na manhã seguinte, Rosalvo foi para Brejo Seco procurar o tal índio que profetizara sobre o tal lobisomem. Não precisou chegar na Vila, pois o velho índio estava sentado na beira da estrada, tomando chimarrão.
_ Índio velho!! Preciso de sua ajuda!!! Suplicou Rosalvo
_ Pois é... Prossegui o velho
_ O tal lobisomem sempre ataca em noites de lua cheia, e ele é muito perigoso, matou quase todas as minhas galinhas! O quê que eu faço???
_ O patrão precisa carregar a arma com balas de prata. Um tiro basta para mandar o cão danado para onde nunca deveia ter saído, o inferno!
Disse o índio em sussuro
O gaúcho já preparava para seguir o caminho da Vila quando o índio disse:
_ Patrão! Sou um velho índio Gaudério... muito velho... já vi de tudo nesse mundo de Deus... e posso lhe dizer que o Capeta ajudou a fazê-lo. Mais uma coisa Seu Rosalvo! O senhor já deve ter encontrado com o tal bicho quando em forma de gente, pelo menos uma vez. O senhor deve ter cuidado, e desconfiar de tudo e de todos!! Na dúvida, não pense, atire! Disse o velho dando um soco na palma da mão
_ Adeus meu bom Índio!! Espero um dia poder retribuir!!! Disse ao gaúcho enquato saía à galope.

"Como farei para matar esse demônio?" Pensava o gaúcho enquanto fazia alguns cartuchos usando um velho punhal de prata que tinha sido do seu avô na Guerra do Paraguai. Conseguiu fazer 3 cartuchos de prata para a sua "Furiosa".
Logo que anoiteceu, o gaúcho montou guarda na porta de casa esperando pela tal criatura peluda. Era lua cheia novamente. Roneide tinha ido ao Sítio vizinho para brincar com os amigos e voltaria antes de anoitecer. Mas ele ainda não voltara e o gaúcho estava muito preocupado. A lua estava mais redonda do que nunca, e o silêncio anormal daquela noite deixava o fazendeiro mais nervoso ainda.
_Bah! Será que o guri encontrou com o lobisomem no meio de caminho? Será que aquele cão dos inferno pegou meu filho?
Mas para quebrar o silêncio, um barulho interrompe as lucubrações de Rosalvo. Na plantação de Mate, mais uma vez, um vulto negro apareceu. O fazendeiro perparou a espingarda, a figura negra parecia que ia em sua direção. Rosalvo não quiz se fazer de rogado, e deu um tiro no meio daquilo que ela julgava ser a cabeça da criatura. O tiro foi certeiro, o corpo caiu no meio da folhagem. Rosalvo ficou eufórico e com um lampião, se aproximou do corpo para ver como era o tal bicho. Mas Rosalvo não consegui acreditar naquilo que via. A cena era tão chocante que o gaúcho macho quase desmaiou. Ajoelhou-se ao lado do corpo inerte e só consegui dar um grito.
_ NÃO!!!!!!!! Não pode ser!!!!!!!!!!
Rosalvo tinha descoberto que havia dado cabo da vida de Roneide, seu filho, com um tiro na cabeça.
_ Meu Deus!!!!! Matei o meu filho!!!!!! Era era o lobisomem!!!!! Gritava de desespero o pobre agricultor. Os animais do Sítio estavam muito assustados, o bode Cheiroso gritava e peidava sem parar.
Rosalvo pegou o corpo do menino e correu em direção de sua casa gritando desesperadamente pela esposa.
_ Durvalina!!!!!! Durvalina!!!! Apareça mulher dos infernos!!!!!!
Rosalvo deixou o menino e a "Furiosa" no terreiro dos fundos e entrou correndo pela porta da sala gritando pela mulher.
Mas as desgraças estavam apenas começando. Rosalvo encontrou sua esposa morta sobre a cama, havia sangue por todo o quarto, o corpo de Durvalina estava completamente destruído, parecia que estava pelo avesso. O pobre fazendeiro estava desesperado.
_ Barbaridade tchê!!!! Quanta desgraça!!!!! Meu guri matou a própria mãe!!! E eu matei meu filho!!!!! Que maldição caiu sobre min!!!!!
O gaucho colocava as mãos à cabeça quando um estrondo veio da cozinha. Rosalvo correu em direção do barulho para ver o que poderia ser agora. Quando chegou até a cozinha, Rosalvo que achava que já tinha visto de tudo, quase teve mais um ataque cardíaco. Uma figura gigantesca, de uns 2 metros e meio de altura estava quebrando a cozinha toda, a vil criatura se virou para Rosalvo. O mostro tinha pêlos negros e se assemelhava com um lobo de garras e dentes super afiados, babando absurdo e com olhos vermelhos de ódio e sede de sangue. Rosalvo, tomado pelo pânico, tentou fugir, mas foi atingido com um golpe que o arremessou pela janela da cozinha até o meio do terreiro. Rosalvo foi defenestrado a uma distância de uns 4 metros. A criatura começava a sair da cozinha, indo em direção dele. Rosalvo acreditou que aquele era o fim... Mas sentiu que caíra sobre a "Furiosa". Tudo depois foi uma questão de centésimos de segundo, a criatura deu um salto na direção de Rosalvo, que com muito esforço, conseguiu mirar a espingarda e puxar o gatilho.

A criatura caíra ao lado do gaúcho, o tiro atingiu o peito do Lobisomem. Rosalvo se eregiu completamente zonzo, se afastou da criatura que tremia enquanto dava gritos horríveis. Aos poucos, a criatura parou de se mexer, e os pelos começaram a sumir, o corpo a mudar. Rosalvo assistia tudo aquilo com um olhar de espanto e nojo. Rosalvo ficou mais assustado ainda quando viu que aquele corpo caído no chão, era conhecido, era o corpo do Índio velho Gaudério.
_ Bah!!! Mas o lobisomem era o próprio Índio???? Santa Maria!!!! Maldito índio, desgraçado!!!!!! Tu arruinastes minha vida!!!! Roneide... Durvalina... Nãoooooo!!!!!!!!
O gaúcho saiu correndo em direção ao campo, gritando pelos Pampas.

Faz tempo que o Sítio de Rosalvo Ruas esta abandonado. Ninguém vai até lá. Dizem que é mal assombrado e que até hoje, pode-se ouvir os lamentos do velho Rosalvo, uivando e correndo pelos Pampas gaúchos em noite de lua cheia, como um Lobisomem!!