O Jardim de Samuel

Não queria ficar mais um minuto perto daquela mulher que dormia com a perna esquerda sobre a sua. O cheiro que ela exalava estava lhe causando náusea e os hematomas por todo o corpo lhe diziam que ela sofreu muito. O odor do suor e da vagina que Samuel sentia lhe davam a terrível impressão de que ela havia gozado. Samuel não lembrava mais o nome dela, mas não era isso que importava. Ela já havia lhe dado o prazer de que ele precisava e agora tudo o que ele precisava fazer era livrar-se dela.

Foi fácil para Samuel enterrar seus dedos finos entre as cartilagens tireóidea e a cricóide daquela mulher que dormia exausta após obedecer aos bizarros jogos propostos por ele naquela noite. Os olhos quase cinza, um pouco esverdeados, projetavam-se das órbitas e viram pela última vez aquele homem alvadio, rostos sem marcas de tempo e olhos trevosos encobertos por longos fios castanhos esmagando seu pescoço com as mãos. Sua visão se turvou e seus olhos se apagaram.

Delicadamente, Samuel pegou nos braços e o levou para o jardim. Fez a cova mais profunda que conseguiu, atirou lá o cadáver e o cobriu com terra, areia e terra novamente. Reimplantou as flores que habilitavam o canteiro anteriormente. Regou o jardim e entrou de volta na casa.

Na bolsa de couro que estava jogada no chão, ele encontrou um documento de identidade com o nome verdadeiro. Ela havia dito que se chamava Lara. Achou também a agenda.

Do outro lado da cidade, Marcelo olhava o relógio, apreensivo. Silvia saíra no dia anterior e ele tinha medo do que poderia ter feito ou dito depois de tudo o que havia bebido. A dor de cabeça não o deixava lembrar, mas sabia que havia revelado a Silvia muito mais do que qualquer um jamais soube ao seu respeito. Sua boca sangrava, ou era o vinho? No espelho do banheiro eles tinham a mesma cor e a partir daquele momento, tinham o mesmo gosto. Agora era Marcelo Werweijen quem decidia por ele. Estava possuído por si mesmo. Bebeu o vinho que restava na garrafa e saiu. Seu carro em alta velocidade derrubou um entregador de flores que vinha de bicicleta em sentido contrário. Estacionou na calçada e, acotoveladondo uma pequena multidão que se espremia na porta da boate, entrou na He'll.

Samuel lavou as mãos sujas de terra e morte e começou a arrumar a cama para sua próxima presa. Não lhe chegavam à consciência os motivos ou as repercussões do seu estranho hábito. Fazia por instinto e prazer. Devolvia ao mundo o que recebia por sua condição de aberração. Guardou a bolsa da mulher no seu guarda-roupa para queimá-la mais tarde. Tomou um longo banho e saiu. Enquanto vagava sem ruma pela cidade, Samuel recordava como conhecera aquela mulher há mais ou manos vinte e quatro horas atrás.

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Samuel já estava há algum tempo sentado no balcão da He'll. Entediado, resolveu comprar algumas gramas da cocaína vendida no banheiro. Cheirou um pouco ali mesmo e guardou o resto em seu Armani. Foi até o centro da pista e deixou que aquela música ensurdecedora empurrasse seu corpo. Enquanto dançava, foi surpreendido por uma mulher que o beijou com violência, tirando sangue do seu lábio inferior. Como num reflexo, ele puxou os cabelos avermelhados daquela mulher e mordeu seu pescoço com força suficiente para fazê-la gritar de dor. Saíram juntos da boate e foram para a casa de Samuel. No caminho, ela havia dito que seu nome era Lara. Seus olhos estavam inchados como se tivessem chorado muito. Samuel parece que se deixou guiar pelo carro, como se este fosse dotado de vida própria e conhecesse os pensamentos do seu dono.

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Várias doses depois, Marcelo e seu novo dono. Marcelo Werweijen, uma nova personalidade -talvez a verdadeira-, dançavam pela primeira vez. Sentia alívio por não encontrar a mulher que o abandonara no dia anterior. Na verdade, era pouco provável que ela o reconhecesse agora. Como num transe, ele era agitado pela música que o atroava e ao mesmo tempo libertava.

Marcelo dançava de olhos fechados quando, de repente, sentiu uma mordida profunda e dolorida no pescoço. Um homem claro com olhos trevosos e longos cabelo castanhos lhe sugava os lábios, a língua, o pescoço. Marcelo se surpreendeu menos com a cena do que com a sua reação. Samuel continuava a sorver a saliva, o suor e os sabores que extraía de sua futura refeição. Quero seu sangue, disse, e pôde ver os dentes do sorriso de Marcelo. A fúria do desejo dos dois continha a promessa do que viveriam em seguida. Seguiam para a casa de Samuel, onde o leito estava preparado para mais uma noite de mórbido prazer. Mais tarde, ambos descobririam que aquela noite seria única e, talvez, a última.

As horas seguintes foram preenchidas com o prazer doentio e brutal de dois corpos que se rompiam em força e rancor. Samuel e Marcelo odiavam a si mesmos e se viam refletidos um no outro. Fizeram ódio naquela noite. Instinto era a palavra que vinha à cabeça de Samuel para ocultar como seu inconsciente o fazia reagir. Auto-destruição era a palavra que fugia da visão de Marcelo, talvez por este estar totalmente mergulhado nela. Duas nuvens carregadas... duas placas continentais... duas massas de ar... duas torrentes marítimas... de igual força e potência. Um contra o outro, trovões, relâmpagos, raios. sismo, erupção. ventania, vendaval, furacão, redemoinhos, ondas, inundação... destruição. Os dois caíram em sono de profunda lassidão.

Não se pode dizer quanto tempo depois, Marcelo despertou. Sentindo seus músculos dolentes, levantou-se e foi até a janela, de onde pôde avistar o maravilhoso jardim de Samuel. Ao olhar para aquelas flores, foi subitamente invadido pela lembrança de Silvia. Uma bruma gélida subia do jardim até a sacada do quarto e arrepiou seu corpo. Saiu da sacada e foi até o banheiro, onde tomou uma ducha quente. Voltou ao quarto, onde Samuel continuava imerso em sono profundo. Abriu o guarda-roupa, à procura de uma toalha, quando se deparou com um objeto familiar. Intrigado, pegou a bolsa de couro que estava jogada em meio às roupas e confirmou sua suspeita de que aquela era a bolsa de Silivia. Revirou os documentos e a agenda. Na página correspondente ao dia em que estiveram juntos pela última vez, Silvia havia escrito a respeito do espancamento que sofreu de Marcelo.

Samuel acordou num sobressalto com os gritos de Marcelo, que, sentado sobre seu ventre, perguntava sobre a bolsa, com as mãos apoiadas em seu pescoço. Samuel livrou-se daquela situação de rendição com um golpe e pôde ver, no corpo de Marcelo e no seu, marcas de violência.

Marcelo mostrou a Samuel os objetos de Silvia.
_O que é isso está fazendo aqui? Onde está Silvia?
_Então você é o namorado tão delicado e amável de Silvia? Que ironia... Samuel agora sabia quem estava em sua cama.
_Você vai falar... Marcelo ameaçou com força.
_Essa pergunta é remorso pelo que você fez, ou é preocupação de que ela ainda estaja por perto?
_Eu não sei o que fiz com ela Tudo que me lembro é que ela me disse que estava esperando um filho meu e... Marcelo se desesperou.
_...e aí você a espancou até ela conseguir fugir. É isso que está escrito naquela agenda. Não foi isso? Samuel matinha-se frio, inalterado.

Marcelo se calou. Não se lembrava de ter batido em Silivia. Foi em direção à janela e ficou contemplando o jardim, atônito, assombrado com sua atitude. Da cama onde estava deitado, Samuel podia ver o corpo de Marcelo na sacada, iluminado apenas por uma fraca luz de uma lua cheia, porém absconsa entre nuvens pálidas.
_Eu não quero um filho. Ela estava tão feliz com a notícia... escolheu até um nome para a criança: Lara. Mas eu não quero uma filha... não quero Silvia... não quero mais... eu já não sei de mais nada... Marcelo mantinha seu olhar, aturido, em direção à névoa do jardim.

Samuel levantou-se da cama e foi até a sacada. Pôs a mão no ombro de Marcelo. Reconhecia-se nele.
_Onde ela está? Marcelo perguntou sem tirar os olhos das flores.
_Você está olhando agora para ela... quer dizer, elas.

Marcelo ficou alguns instantes sem entender. Olhou fixamente para Samuel, que fitava o jardim lá embaixo. Finalmente compreendeu. Não sentiu nada por Silivia. Sentiu medo de Samuel, mas viu que agora era diferente. Abraçaram-se e voltaram para a cama. Marcelo estava aliviado por ter terminado tudo e adormeceu nos braços de Samuel.

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Samuel via-se em Marcelo. Não se sentia mais apenas uma aberração. Deus errou mais de uma vez, pois criou alguém semelhante a Samuel. Ninguém é infalível, nem Deus, pensou. Mas duas forças tão similares e tão equivalentes acabariam se destruindo uma à outra. Mas Samuel sentia algo diferente em relação a Marcelo. Aquele homem deitado ali ao seu lado não lhe parecia mais uma das suas vítimas, raciocinou. Mas este pensamento não o impediu de enterrar seus dedos finos no pescoço de Marcelo, que viu pela última vez os olhos trevosos de seu amante antes de deitar para sempre ao lado de Silvia e Lara, no jardim de Samuel.